O QUE SÃO AS LÍNGUAS AMERÍNDIAS?

As línguas ameríndias são as faladas pelos primitivos habitantes da América e por seus descendentes. Formam um conjunto claramente diferenciado frente às línguas européias de colonização. Nunca foi possível estabelecer uma relação entre elas e outras línguas não americanas, com a única exceção do esquimó, que veio da Sibéria e penetrou no extremo norte da América. O estudo e a classificação das línguas ameríndias foi sempre um problema de difícil solução, por várias razões: a falta de testemunhos escritos, a não ser em casos muito especiais; a grande dificuldade de acesso às zonas habitadas pelos falantes; a enorme fragmentação dialetal; o fato de muitas dessas línguas estarem ameaçadas de extinção; e a inexistência, ao que se sabe, de um tronco lingüístico comum que permita trabalhos comparativos.

Seria impossível entender a história da América sem avaliar a contribuição das comunidades que a povoavam antes da colonização européia. E a herança mais genuína dessas culturas são suas línguas, ainda vivas em muitas regiões do continente.

Estado atual
A colonização européia provocou o desaparecimento de numerosas línguas ameríndias (cerca da metade das do norte do continente, uma porcentagem menor no sul e todas as do Caribe) e destroçou muitas outras. Os grupos que mais resistiram foram o uto-asteca e o maia, na Meso-América (México, América Central e Antilhas), e o tupi e o quechumara, na América do Sul. Segundo estimativas feitas na década de 1980, apenas 15 línguas tinham mais de cem mil falantes, e eram muitas as utilizadas por somente algumas dúzias de pessoas. O bilingüismo é um fenômeno cada vez mais amplo e não são raros os empréstimos entre as línguas européias e as ameríndias. O grau de elaboração dessas últimas tem estreita relação com o desenvolvimento das sociedades que as empregam. Não se pode afirmar que tais línguas sejam "primitivas": ao contrário, todas se servem de sistemas gramaticais e fonológicos completos e seus vocabulários não se mostram tão reduzidos como levam a crer certas informações; alguns desses vocabulários incluem milhares de palavras e permitiram o florescimento de literaturas de grande brilho.

Classificação
De acordo com um critério convencional, as línguas ameríndias foram divididas em três grandes blocos de base geográfica: o da América do Norte, o da Meso-América e o da América do Sul.

Línguas indígenas da América do Norte
Nesse bloco se incluem as línguas indígenas do Canadá e dos Estados Unidos, assim como algumas das utilizadas no México, que fizeram sentir sua influência além da fronteira setentrional desse país. O número das línguas sobreviventes foi estimado em cerca de 200, com aproximadamente um milhão de falantes. Apesar de existirem algumas exceções, como a dos navajos, as línguas indígenas da América do Norte continuam perdendo terreno.

Até o momento não se conseguiu estabelecer nenhuma teoria que identifique uma possível origem comum para todos esses complexos lingüísticos. Embora se considere indiscutível que os primeiros povoadores da América procederam da Ásia, através do estreito de Bering, as tentativas de vincular as línguas do norte do continente às asiáticas se mostraram infrutíferas. A grande diversidade lingüística da América do Norte parece indicar que o povoamento se produziu ao longo de várias ondas de imigração de povos asiáticos, pertencentes a troncos lingüísticos distintos e, provavelmente, já desaparecidos.

O contato com o inglês e o francês originou uma precária situação de bilingüismo na qual as línguas indígenas ocupam posição socialmente subordinada. A influência externa afetou sobretudo o vocabulário e isso permitiu que, em linhas gerais, fossem respeitados os níveis mais profundos de estrutura da linguagem, como a fonética ou a sintaxe.

Entre os grupos lingüísticos dessa área do continente se encontram o na-dene, o macro-algonquino, o macro-sioux, o hoka e o penuti. O grupo uto-asteca, do qual se falará adiante, também se estendia por boa parte do território do que é hoje o oeste dos Estados Unidos.

À margem de todos esses grupos lingüísticos devem-se mencionar outras duas línguas, o esquimó e o aleúte, usadas na parte mais setentrional do continente americano. No início da década de 1980, o esquimó era falado por cerca de cem mil pessoas no Alasca, no norte do Canadá, na Groenlândia e entre os esquimós da Sibéria. O aleúte, com um número de falantes muito menor, sobrevive nas ilhas Aleutas, a oeste do Alasca.

Línguas indígenas da Meso-América
A esfera de influência das línguas do segundo bloco inclui o México, a Guatemala, Belize, El Salvador e regiões de Honduras e da Nicarágua, uma área geográfica de particular importância na história da América. O estudo lingüístico da Meso-América se interessou em primeiro lugar pela possível origem comum das línguas, deixando em segundo plano os critérios de distribuição geográfica. Nesse terreno, foi de grande utilidade o material acumulado pelos missionários dominicanos e franciscanos durante os séculos XVI e XVII. Hoje se dispõe de um bom número de gramáticas e dicionários, e também foram feitas coletâneas de literatura popular.

Entre os grupos delimitados pelos lingüistas estão o otopame, o popoloca, o mixteca, o zapoteca, o mixe-zoque, o totonaca, o misumalpa (ou misquitosumo-matagalpa), o uto-asteca e o maia. Os dois últimos são provavelmente os mais importantes. As línguas uto-astecas são ou eram faladas no sul dos Estados Unidos e em diferentes regiões do México. Entre elas se destaca o námatle, que na fase clássica é também chamado de mexicano ou asteca. Em seu grande momento de esplendor, essa língua refletiu a supremacia do México na Meso-América pré-colombiana. Antes da conquista espanhola, os astecas, orgulhosos de seu idioma (námatle significa "harmonioso", "suave ao ouvido"), qualificavam de selvagens (chichimecas) as outras línguas faladas no altiplano do Anahuac. O námatle contava com uma escrita própria -- combinação de ideogramas e símbolos fonéticos -- e teve importante uso literário.

No que se refere ao grupo maia, sua área de influência abrange a Guatemala -- uma importante minoria da população desse país se expressa em línguas maias --, Belize e o México (particularmente a península de Yucatán, Tabasco e Chiapas), assim como parte de Honduras e El Salvador. O maia propriamente dito é falado na península de Yucatán; outras línguas do grupo são o mam da Guatemala, o tzeltal, o quiché, o pocom e o huasteco (utilizado em Tamaulipas e Veracruz, no México). Um dos mistérios que cercam o maia pré-colombiano é o de sua escrita, que não foi decifrada.

Os astecas e os toltecas se expressavam em námatle, enquanto que os maias usavam provavelmente duas ou três línguas do grupo maia; em Monte Albán se falava, ao que parece, uma língua zapoteca. Não há certeza em relação às línguas empregadas em Teotihuacán e entre os olmecas. Embora vinte milhões de pessoas habitassem a Meso-América nos primeiros anos do século XVI e usassem portanto alguma língua autóctone, na década de 1980 eram só 7.500.000 os falantes de línguas indígenas na região central. Sobreviviam cerca de setenta dessas línguas. As mais faladas eram o námatle, entre as do grupo uto-asteca; o quiché-tzutujil-cakchiquei, e iucategue, o mam e o kekchi, do grupo maia; e o otomi, o zapoteca e o mixteca. Não se deve ignorar, no entanto, que a influência espanhola se faz notar sobretudo no vocabulário e na ordem das palavras, e que grande parte da população é bilíngüe. O próprio espanhol herdou várias contribuições, especialmente do námatle, no âmbito do léxico: nomes de plantas, animais, utensílios etc.

Línguas indígenas da América do Sul. No terceiro bloco se incluem as línguas indígenas da América do Sul, das Antilhas e da parte mais meridional da América Central. Segundo vários cálculos, a população pré-colombiana dessa área ficava entre dez e vinte milhões de habitantes. Na década de 1980 os falantes de línguas locais eram aproximadamente 16 milhões, na maioria concentrados nas regiões andinas. O número de línguas utilizadas também está sujeito a discussão: só se dispõe de material lingüístico confiável sobre 550 a 600 delas (das quais 120 já desaparecidas).

De acordo com todos os dados antropológicos e arqueológicos, os índios sul-americanos procedem do norte do continente. É natural, portanto, que se tenham buscado possíveis relações entre as línguas faladas nesses dois espaços geográficos. Mas, até agora, só foi possível estabelecer uma relação, aliás bastante questionada, entre uma língua quase extinta falada na Bolívia, o uru-chipaia, e o grupo maia da Meso-América. A diversificação lingüística típica da América do Sul, mais óbvia que a do norte do continente, pode ser atribuída ao decurso de um tempo muito maior desde o momento em que os diferentes grupos sul-americanos perderam o contato entre si.

Também no caso da América do Sul, os missionários foram os primeiros a se interessarem pelas línguas indígenas. Em 1560 apareceu uma gramática quíchua e, durante os séculos XVII e XVIII, proliferaram gramáticas e dicionários, assim como catecismos escritos nas línguas locais. O estudo científico dessas línguas data da segunda metade do século XX. Embora algumas famílias lingüísticas coincidam em linhas gerais com grandes áreas físicas -- os grupos caraíba e tupi podem, por exemplo, ser associados com a selva tropical --, as superposições se mostram em geral muito mais complexas. Em vista dos problemas existentes, não é fácil distinguir uma língua de um dialeto, e parece inviável diferenciar com clareza uma família de um tronco lingüístico. Apesar dessas limitações, as línguas indígenas da América do Sul foram classificadas em vários grupos.

O grupo macro-chibcha compreende cerca de quarenta línguas utilizadas por 400.000 falantes em várias regiões situadas entre a Nicarágua e o Equador. A cultura muísca, que floresceu nos Andes colombianos, empregou uma língua chibcha. No grupo aruaque, que antigamente chegou a estender-se da Flórida à Argentina e dos Andes até o Atlântico, incluem-se mais de 55 línguas, algumas das quais ainda são faladas no Peru, na Colômbia, na Venezuela e nas Guianas; os primeiros índios encontrados por Colombo se expressavam em taíno, uma língua aruaque. O grupo caraíba compreende aproximadamente cinqüenta línguas e experimentou um evidente retrocesso em suas antigas áreas de influência, a saber: as Antilhas, o Brasil e as Guianas; seus falantes se concentram hoje na Venezuela e na Colômbia. O grupo tupi, cujos componentes ocupavam regiões situadas ao sul do rio Amazonas e em sua foz, é mais importante. Uma de suas formas atuais, o guarani, é língua habitual de comunicação da maior parte da população do Paraguai e tem abundante literatura. O guarani foi a língua utilizada nas missões paraguaias dos jesuítas.

O grupo lingüístico autóctone mais extenso da América do Sul é, no entanto, o quechumara, do qual fazem parte o quíchua e o aimará. As línguas desse grupo, que se estendem do sul da Colômbia até o norte da Argentina, ao longo da cordilheira dos Andes, opuseram tenaz resistência à influência do espanhol. Outros grupos são o macro-jê (Uruguai), o tucano (Amazonas ocidental) e o macro-pano-tacana (fronteira peruano-brasileira, Patagônia e Terra do Fogo).

Um futuro incerto. Com a pressão exercida pelas línguas européias, que têm um peso cultural e gozam de apoio político e institucional, é problemático o futuro das línguas ameríndias. O fato de que se tenham conservado nas zonas economicamente mais desfavorecidas do continente não contribui de modo algum para melhorar sua situação. De qualquer forma, é inegável que a sobrevivência dessas línguas está indissoluvelmente vinculada à das sociedades que expressam e à própria identidade cultural do continente americano.